31.8.10

Nós temos um encontro com o pó de pirlimpimpim, nossos milhares de pés não podem tropeçar

Nem o mais genial dos artistas é capaz de penetrar olhos que voluntariamente se fecham para o mundo da Fantasia. Há, nesta postura anti-lúdica, uma resistência que não se justifica por nenhuma espécie de crença estética ou valor artístico pessoal. Trata-se da mais assombrosa e perigosa Ignorância.
 
Sejamos específicos e deixemos claro desde o início que acontecimento motiva esse texto: a insatisfação com a obra escolhida para ser exibida na programação reservada ao cinema no festival Quebramar, realizado em julho deste ano em Macapá. Tratava-se, no caso, de Ratatouille, de Brad Bird (realizado dentro da gigante da animação Pixar e distribuído pelos estúdios Walt Disney).



A escolha desta animação, feita para motivar um debate acerca do artista e de seu processo de criação, foi considerada desrespeitosa e prejudicial ao festival em questão (festival que pretende um diálogo entre os mais diferentes gêneros artísticos, afirmando um respeito pelas diferenças existentes entre os mais diferentes estilos). É importante deixar claro que Ratatouille é, na opinião de diversos membros da APJCC, a animação da década. Obra-prima brilhante, ode feita por um artista ao seu meio de vida, à sua paixão, à sua motivação última: a arte. Porém, antes de dar continuidade à homenagem escrita que esta animação merece, é necessário nos determos na situação em questão.
 
Uma coisa é ouvir em uma fila de cinema pessoas desrespeitando grandes obras da linguagem áudio-visual (fiquemos no exemplo das animações, especialmente as mais comumente vilipendiadas como sendo “infantis”, “ingênuas” e “mercadológicas”, ou seja, as feitas nos ou em parceria com os estúdios Walt Disney). Outra coisa é ouvir da boca de realizadores que trabalham a favor da disseminação e do debate da arte reclamações indignadas a respeito de uma determinada obra motivadas não por seus méritos estéticos, mas única e exclusivamente por sua origem.

 
Se, durante a história da humanidade, sempre houve a luta árdua para convencer o público em geral que o Jazz não era um gênero musical inferior por ter berço negro, que Beatles não era uma banalidade por ser consumido em profusão pelas “massas” ou que a música do Velvet Underground não é menos arte por ser feita por jovens viciados em heroína, hoje (no ano de 2010) é preciso vir a público com este texto para lembrar que a nacionalidade, a linguagem, o gênero e o estúdio responsável pela produção de uma obra não podem ser os elementos exclusivos e totalitários de julgamento de qualquer expressão artística. E ter que lembrar isso a pessoas que estão diretamente envolvidas com a criação, reflexão e disseminação da arte é a circunstância mais assustadora de todas.

 
É indispensável esclarecer, ainda, que todo esse debate poderia ter sido realizado após a exibição de Ratatouille durante o festival Quebramar. No entanto, não só a sessão começou com mais de 2 horas de atraso (por problemas da organização do evento) como o público se retirou durante a sessão sem dar oportunidade para que o diálogo ocorresse. Fecharam os olhos e os ouvidos, levaram sua indignação para os botecos e rodas de amigos.

 
Então, que se faça aqui um pouco ao menos do que teria sido exposto na referente ocasião se tivesse havido oportunidade: quando o grande chef Gusteau diz ao ratinho Rémy que “qualquer um pode cozinhar”, ele não está dizendo que toda e qualquer pessoa pode vir a se tornar um artista (afinal, a culinária em Ratatouille é tratada como Arte), mas sim que a Arte pode surgir de todo e qualquer lugar. A democracia do lirismo, a possibilidade de nos depararmos com artistas de origens as mais diversas é o cerne dessa obra. E se projetarmos essa discussão para a própria existência dos estúdios Pixar teremos uma visão ainda mais abrangente daquilo que Gusteau ensina ao seu pupilo: afinal, quem diria que de uma máquina pesada e fria, construída apenas para o armazenamento de dados, que é o computador, poderia brotar a mais pura e bela fantasia, o mais sincero lirismo? Pois, assim como o Radiohead, a Pixar faz sua poesia (e basta ver com os olhos sem preconceito animações como UP, Toy Story 3 e Monstros S.A. para nos darmos conta que estamos diante de Poesia) através de uma invenção criada para servir à propósitos estratégicos na II Guerra Mundial.

 
Quem somos nós para limitar às fontes legítimas pelas quais uma arte pode se expressar? Quem somos nós para determinarmos que não é possível que a arte surja a partir da TV, do computador, da palavra, do baixo estourado do Joy Division, dos vocais berrados de Kurt Cobain, do eletrônico lisérgico do Pink Floyd?

 
Mais uma vez, Ratatouille responde belamente esses questionamentos: àqueles que pretendem tolher o espírito poético, àqueles que sentem necessidade de afirmar a qualidade da arte a partir de sua origem só resta reconhecer a pequenez do horizonte de seu espírito diante da manifestação do verdadeiro talento, como faz o crítico Ego ao final da obra de Brad Bird -  na esperança de que, através desse reconhecimento (também como o personagem de Ego), as visões se ampliem, a mente se abra e a arte penetre nesses olhos trancados diante de sua presença.

 
A recusa do debate é a morte do aprendizado. Sem qualquer espécie de ressentimento pessoal o que mais incomoda é ter a certeza que uma obra do porte de Ratatouille merecia um tratamento à altura de sua relevância artística. Talvez em um mundo ideal, onde deixem de existir preconceitos quanto à música produzida por negros e viciados em heroína, bandas consumidas pelas “massas”, baixos estourados, vocais berrados e efeitos eletrônicos lisérgicos, possamos esperar que não haja tão violenta postura diante de uma animação que nem sequer foi assistida, mas pura e simplesmente rotulada a partir do estúdio que a realizou.

 
O preconceito emburrece e a arte liberta. Infelizmente, assim como a arte, o preconceito pode ser eterno. Cabe a todos aqueles que se PROPÕEM a realizada um DEBATE sério sobre a expressão artística garantir que o preconceito seja o mais rápida e impiedosamente exterminado. Eu me disponho a lutar essa batalha – mais alguém?

 
Felipe Cruz (APJCC) – responsável pela exibição de Ratatouille no festival Quebramar.

25 comentários:

Miguel Haoni disse...

Continuando o debate:
http://cinemateusmoura.blogspot.com

Gabriel Gaya disse...

Such a beautiful animal !

thiago disse...

ui, caiu uma lagrima aqui... vou juntar pera...

Bárbara Andrade disse...

Faço parte do planejamento do Coletivo Megafônica, ponto Fora do Eixo PA e integro o Clube de Cinema Fora do Eixo, com mais vários outros membros do brasil inteiro. Estava presente no Quebramar e assisti o filme até dar pau no DVD e pararem a exibição. Amo Ratatouille, é o meu filme da Disney preferido, chorei as 2 vezes em que assisti. É poesia pura, não discordo de vcs em nenhum momento. A sensibilidade que esse filme tem, a vida, tudo é muito perfeito.

Agora em relação a exibi-lo em uma mostra num festival independente, não acho que tem sentido, primeiro por ser um festival independente, onde as pessoas vão pra conhecer bandas independentes, verem bandas que nunca viriam no faustão, na globo ou em algo do tipo, desconectadas da lógica de mercado atrelada às grandes gravadoras. Isso é o que carateriza um festival independente, e nos festivais de artes integradas que envolvem teatro, dança, audiovisual, etc, isso não é diferente. O público que estava ali pra assistir a mostra, esperava, em um festival independente, algo independente, docs, curtas, médias ou longas que não se vê nos cinemas, nem na globo, na sessão da tarde, ou algo do tipo, e é aí que está a problematização da exibição de Ratatouille, foi totalmente de encontro aos ideiais do movimento, do coletivo, da rede, do festival e do meio que a gente trabalha.
Acredito que poderia ter havido um diálogo maior antes da parceria que tivesse esclarecido melhor os ideiais de cada núcleo de produção.
Já sabemos como encaminhar na próxima oportunidade,
bjs!

Otto Ramos disse...

Otto Ramos - Festival Quebramar (Circuito Fora do Eixo)

"Posso ver arte em tudo..."

Tá claro que essa frase é simples e de fácil entendimento, e ainda mais quando relacionamos a este caso. Bom o que ocorreu foi bem relatado pela Bárbara, é tb muito clara a grandiosidade da obra em qustão, eu particulamente gosto muito tb das animações da Pixar em especial Ratatouille, e em conversa com a galera que vinha pro Quebramar e não veio, a intenção era simplesmente "Chocar a platéia" o que me deixou mais aina sem entender o pq de exibir films da Disney num festival independente, e vale a pena ressaltar o acordo entre as partes:
Vamos lá -
1] Conexão Vivo Belem
Fui procurado e me propuseram uma parceria para exibição de produções do Cine Clube do Pará nos dias de festival Quebramar em Macapá. Abri espaço mesmo tendo a programação do Festival fechada e caminhando para a gráfica...mesmo assim, avaliei e vi que era de extrema importância ver produções paraenses no festival.
2] A equipe que propos não veio à Macapá e indicou outra pessoa pra ocupar o espaço outrora acordado entras entidades.
3] Fui claro mais uma vez que seria uma exibição de filmes e docs relacionados à nossa região e/ou relacionados à culura rocker por se tratar de um festival no qual o rock se destaca pelo grande numero de produção autoral na rede.
4] Todo evento tem contratempos e isso acontece no MUNDO TODO, o fato é que o publico (mesmo reduzido) foi ali pra ver produções independentes o que não aconteceu, o povo saiu da sala por se tratar de um longa e a dinamica do Quebramar sempre foi curtas e animações curtas o que apresenta um maior numero de obras e em pouco tempo, estamos falando de um festival e nao uma premiere de um longa.
4] Em Belem durante o Festival Megafonica procurei as mesmas pessoas, e num papo reto e sincero, percebemos que ali realmente nao era ambiente favorável para a exibição do longa supracitado, e isso a cada palavra fica mais claro, e que relamente rolou uma falta de comunicação entre as partes envolvidas, talvez por que a falta das pessoas que se comprometeram em assumir o compromisso, acarretou e jogou o "mal entendido" pra cima de outros.

Não vejo que isso seja um desgaste ao ponto de ferver os coments aqui, sou artista tb e reconheço que nem todo lugar é lugar pra expor o que produzo, que existem vários e vários formatos distintos de ações de divulgação, festivais, mostras e etc, cada um na sua pegada, e de maneira alguma fomos preconceituosos com a obra da Pixar, é absurdo achar que pessoas como nós não reconhecemos a grandeza do filme, agora não era lugar e o processo não teve o acompanhamento devido das pessoas que propuseram a ação, este é o problema, Ratatouille é lindo, a poesia, o bom gosto e história nele inseridos é de uma grandeza ímpar, mas o publico, a organização e até mesmo os que não vieram, esperavam PRODUÇÕES PARAENSES, DOCS, CURTAS E FILMES RELACIONADOS AO ROCK E MUSICA EM GERAL...uma pena não ter rolado de boa, vamos melhorar, afinar o pensamento, planejar junto, cumprir os compromissos e seguir adiante, pro lugar que devemos chegar e juntos. Abraços!

Heluana Quintas disse...

Como quem assistiu ou teria assistido:

Eu levei minha "indignação para os botecos e rodas de amigos".
Só por isso, se o texto em questão fosse meu a frase da canção que daria título seria:
"Onde andará você?"

Já tinha assistido ao filme. Inclusive é muito fácil. Tenho um pirateado e tbm já zerei o joguinho no playstation. Mas não é o que se espera num Festival Independente. Já discutimos o filme, o tema, a animação, a perspectiva sobre a arte da gastronomia, sobre talento, sobre sabores, cores, ratos, enfim... tudo isso qdo o filme estreou. Eu naum podia debater mais. Optei por debater outros assuntos mais frescos.

"Nós temos um encontro com o pó de pirlimpimpim, nossos milhares de pés não podem tropeçar"

A letra da canção é minha. O título dela é Gregor Samsa, que é um personagem do Metamorfose, do Kafka. Não é muito lúdico, o romance. Mas a canção é. Dá pra encontrar ludicidade em lugares onde ela nem pensa em existir. O óbvio as vezes é pouco instigante. Ratatouille pra ser debatido num Festival Independente é isso: óbvio (afinal eu já o tinha visto) e pouco instigante.

Sinto muito, mas prometo me manifestar toda vez que for motivada. Como sempre...

Abs

Felipe disse...

Compreendo, apesar de não concordar, com o que é afirmando quando se diz que o filme já foi largamente assistido e pode ser facilmente encontrado em qualquer lugar; porém a postura que assumi quando escolhi Ratatouille foi a de optar por qualidade artística, antes de qualquer coisa.
Na conversa que tive com a produção do evento antes da sessão não me foi passado que a programação tinha que ser necessariamente voltado a produção regional e independente ou com temática ligada ao rock e à música, tanto é que minhas escolhas oscilavam entre Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock e Ratatouille de Brad Bird. Como não encontrei Janela Indiscreta em nenhuma locadora da cidade, fiquei com Ratatouille para discutir a animação enquanto arte em todas suas particularidades - discussão que não vejo ser realizada de forma ampla e profunda por parte de crítica e público.
Quanto à escolha ser "óbvia" ressalto a importância do segundo olhar sobre um obra de arte e da riqueza do debate que pode surgir de uma revisão (e foi esta riqueza que presenciei todas as vezes que exibi uma animação da Pixar na cidade de Belém), e para mim não há nada mais instigante do que a possibilidade de reavaliar meus conceitos e noções sobre arte.
Que bom saber que Ratatouille é reconhecido como grande obra que é - acredito piamente que esse tipo de produção (artisticamente genial) sempre deva ter lugar em todo e qualquer tipo de debate que gire em torno da arte.

Abraços.

Ricardo Atmofda disse...

oi pessoal.
não sei se eu falo... tá bom, vou falar.
eu acho que qualquer filme do mundo serve prum debate: filme ruim serve pra analisar um filme ruim, o bom pra discutir sobre um bom e de qualquer um deles se tira proveito.
eu penso que animação, o gênero, faz tempo que não sofre preconceito de arte menor, pelo contrário, pelo menos no meio que ando.
talvez a intenção da escolha também fosse atrair público. o que é interessante (a primeira dose é de graça).
Às vezes, ao ver algumas animações com os seus movimentos faciais todos matematicamente construídos, sinto-me tipo quando vejo propaganda publicitária que me fazem rir. eu rio (ou choro), mas depois fico com vergonha de rir por que se ri, significa que os publicitários conseguiram mais uma vez rsrs. não é o caso de ratatouille.
o que quero dizer é que não me parece uma escolha óbvia, pois, eu nunca imaginaria que seria escolhido este filme pra ser exibido num festival de música independente neste contexto onde o público carece de obras “despintadas”, então a escolha não é obvia. mas neste caso, acho que a escolha deveria ter sido mais óbvia, ou seja, algum filme mais próximo do tema do festival, uma produção independente, regional pra valorizar o povo daqui talvez... nem sei... tamos falando de arte voces aí sabem que é foda falar disso porque é quase tudo muito subjetivo e é muito angustiante ficar aqui tentando argumentar sobre juísos de valores, nem sei se isso são juízos de valores.
o felipe, que não sei se conheço, foi o responsável pela escolha e escolheu. o debate que nasceu desta escolha, me parece, rendeu mais do que o imaginado, mas, pra mim, a escolha ficou parecendo a feira do livro aqui em Belém: o governo trouxe timbalada (pra atrair público, ou porque o tema da feira é áfrica, ou o esquema de pão e circo) ao invés de , num sei, mestres da guitarrada, talvez (nem sei se tão na programação).
bem, resumindo, não custava nada.
mas esta parceria entre o coletivo e apjcc é muito massa, ó.
parabéns felipe por meter a cara, mas criticar quem critica, também merece crítica, mas isso é óbvio.
(acho massa esse negócio, essa casualidade dos argumentos... fico tenso esperando a resposta... se é que vem)
abraços.

Felipe disse...

Oi Ricardo,
cara, o motivo por trás da escolha de Ratatouille foi única e exclusivamente a relevância artística dessa grande obra, ou seja, a escolhi por considerá-la animação da década e uma das maiores obras-primas da linguagem da animação (e falamos de uma linguagem que possui gênios como Hayao Miyazaki).
Se a animação é vista com preconceito ou não pela maioria é um debate mais extenso e complexo, mas tenho certeza que ainda não existe o debate acerca da animação que essa linguagem merece (suas técnicas, processo de produção, de criação, de finalização, etc), como Mateus afirma no texto também publicado nesse blog, 99,9% dos críticos não sabem nada de animação, visão com a qual concordo totalmente. A carência por essa discussão me parece uma das necessidades mais patentes do debate sobre a linguagem audio-visual, e para essa conversa Ratatouille oferece um prato cheio.
Realmente o debate rendeu mais do que o imaginado, o que só confirma a excelência e a importância de Ratatouille. O que sempre reforço é o perigo de se negar a possibilidade de diálogo, que foi o que aconteceu quando o público preferiu se retirar da sessão.

canoa_manoel disse...

olá felipe, sou muito fã de cinema, assisto à quase todos os gêneros e reconheço nas animações (principalmente nos últimos 15 anos, a idade do primeiro toy story) como o gênero que mais produz filmes de qualidade. Mesmo pequenos filmes, são bem mais interessantes que a grande maioria de mais do mesmo que são lançados semanalmente em nosso país.
Concordo com quase tudo do que vc disse sobre o filme, e adoraria debater sobre o filme, principalmente se vc tivesse feito parte da equipe (quem dera felipe fosse o nickname do brad Bird). Discussões sobre arte sempre são bem vindas, mesmo sendo totalmente subjetivas e pessoais.
O único problema ocorrido vc já etendeu, e aí não vou me repetir, pois a Barbara e o Otto já explicaram os critérios para a seleção de filmes em mostras independentes.
Além do empecilho legal da exibição(pois com certeza vc não tinha autorização pra isso) vejo que foi algo muito do teu gosto (e parece que vc tem bom gosto pra filmes e pra música), de que vc fica louco pra discutir e esplanar sobre as infinitas qualidades do filme em questão

Sinto a mesma vontade de debater, criticar e analizar muito dos filmes que assisto, mas quase ninguém tem saco. Só que faço isso no buteco da esquina, tomando coca cola e não numa MOSTRA INDEPENDENTE QUE VISA DIVULGAR PRODUÇÕES AUTORAIS, assim como tudo que é ligado aos festivais independentes.
No mais, espero que a parceria seja reaprumada, mas nunca cancelada, pois pode trazer muitos frutos ainda.

bons frutos e boa sorte

Manoel Vilas Boas

Mateus Moura disse...

Justiça seja feita, nada aproxima mais as pessoas do que uma boa discussão. Me sinto bem mais próximo do festival quebramar, circuito fora do eixo, Manoel, Otto, Heluana, Ricardo, Bárbara, etc, do que antes.
Só esclarecendo as intenções: as idéias que surgiram do contato com o Otto, de fazer essa onda no Quebramar eram, para mim e pro Miguel Haoni, super empolgantes, e estávamos prontíssimos para propor uma revisão do cinema contemporâneo (que incluia um blockbuster sul-coreano de monstro do Bong Joon-Ho "O Hospedeiro", um romance norte-americano do James Gray "Amantes", e o último filme do mosqueirense Márcio Barradas "O filho de Xangô"). Infelizmente, institucionalmente não fomos amparados como esperávamos, mas ao invés de cancelar, já que o Felipe estava em Macapá, decidimos passar o bastão à ele da programação - e, realmente, ele não poderia ter representado melhor.
Acho que estamos na mesma barca e não percebemos... quando Felipe Cruz decide falar de "estética da animação" num festival independente ele quer justamente tratar de questões marginais (que estão à margem). A animação ganhou prestígio ultimamente por "tratar de temas adultos", ganharem novamente "aceitação popular", etc, só qualidades que são discutíveis enquanto valores críticos consistentes. Numa "MOSTRA INDEPENDENTE QUE VISA DIVULGAR PRODUÇÕES AUTORAIS" Felipe foi falar de BRAD BIRD, nome desconhecido do "filme da Disney" (que na verdade é só por ela distribuído, não participando em nada que se refere à construção artística).
Proponho, desde já, neste parceria - que agora sim pareceu se enlaçar - já para a programação do próximo Quebramar, uma grande discussão sobre animação no mundo: exibindo desde os produtos da industria cultural mais estabelecidos até os independentes mais obscuros, desde os americanos até os realizadores regionais. Não se preocupando com questão geográficas, políticas, tecnológicas só nos resta a arte, a mera arte - o que realmente nos interessa.

Anônimo disse...

Os organizadores do evento, por serem os organizadores, deveriam ter opinado sobre a escolha do filme para situar a curadoria.
Os problemas poderiam ter sido evitados assim. Simples.
Incoerência da organização que não toma conta do próprio evento e não assistiu o e ao debate!


Mariana

André disse...

Bem,

Engraçado reclamar de um filme indepedente em um festival indepedente quando o festival quebramar usou o Ratos de porão como headline no ano passado. Sinceramente, ratatoille é bem superior a maioria da produção indepedente audiovisual que é sempre bastante chata, repetitiva e consiste em fazer video-clipes para chapadões.

Ok,mas o filme não entra no contexto da discussão do cenário indepedente. O que entra então? Posso sugerir algo?

Na próxima mostra, para contextualizar uma boa discussão, acho que a obra de George Orwell deveria entrar na mostra.Traria uma boa discussão sobre essas coisas de coletivo e tudo mais(apesar dos filmes serem meio ruinzinhos).Depois da exibição, os ripongas, barbudos e hipsters poderiam se juntar na sala do ódio e gritar contra o irmão mainstream.

Deixem de ser bitolados. Arte é arte e toda exibição é válida.

Heluana Quintas disse...

Quem disse que não é arte, André? Ratatouille é arte, ninguém disse o contrário. Só que dispondo de um espaço onde provavelmente as pessoas se demonstrassem dispostas ao "novo", o Ratatouille talvez não fosse assim tão novo. Agora, analisando a cena do AP: aqui não tem banda larga. Isso quer dizer que é muito dificil baixar filmes independentes (ou não) da net. Em outras palavras, reduz muito o acesso das pessoas à obras cinematográficas, restando, portanto, o que as locadoras oferecem. Junte a fome com a vontade de comer e a gente vai ver que tem um monte de ripongas, barbudos, hipsters e outras adjetivos em tons preconceituosos, super a fim de estabelecer uma relação sexual com os filmes de onde Mateus Moura tirou as ilustrações pro texto "Caminhemos pra que um dia possamos andar".
Bem, fora tudo isso, acho que a minha sugestão é utilizar os poucos espaços que temos pra arte com a finalidade de tornar os espaços nas mentes das pessoas mais democratizados.

E, ainda sobre Ratos, os de Porão, os trouxemos sim e utilizamos isso inteligentemente colocando outras 14 bandas desconhecidas do público amapaense para serem vistas pelas quase 3000 pessoas que em sua maioria foram ver o Ratos. Resultado: muitas curtiram o que viram antes.

André disse...

Você e a organização do seu festival de 3000 pessoas poderiam ter explicado esse contexto amapaense a organização da mostra de filmes,Heluana.

Acho que me expressei errado na minhas palavras ao dizer que voce disse que ratatouille não é arte. É arte, ambos concordamos. No entanto, você disse que o filme é pouco instigante para o debate,reduzindo a relevância dele para um possível debate sobre produção indepedente.Uma vez que, como foi dito pelo ricardo, tudo é motivo para debate. E se a mostra fosse com filmes indepedentes, será que haveria espaço para tanto debate assim?

Faz dois anos que eu não moro em Macapá, mas sempre acompanhei (de longe), a movimentação da cena indepedente e existem iniciativas de produção indepedente como o FIM e o UNIVERCINEMA. A "fome e a vontade de comer" poderiam ter procurado essas iniciativas também,não? Seria mais uma logomarca para por no cartaz do quebramar e também, uma prova de que o coletivo está integrando, de fato, as iniciativas de cultura no estado.

Estou me prolongando demais. Regras são regras e os rapazes da mostra as desobedeceram por completo e "saíram do eixo" temático do festival.

Miguel Haoni disse...

É terrível para um debate quando não tem nenhum elemento irracional/idiota/inconsequente que pela imaturidade dá suporte para a o triunfo da razão. Nenhum debate virtual da apjcc foi tão vitimado pelo bom-senso e o alto nível das idéias e argumentos quanto este. Como disse Jean Renoir e com toda sabedoria “O mal do mundo é que todos têm as suas razões”. Neste sentido vou tentar fazer o bem e perder um pouco o bom senso ao falar sobre esse tal de ROQUENROU!
Arte e Rock’n roll são acima de tudo enfrentamento! É a possibilidade de se lançar no desconfortável, de viver segundo a necessidade humana de agressividade e lirismo. Uma atitude fundamental para o espírito da coisa é sempre se lançar na contra mão da própria zona de conforto. Enfrentar os inimigos de frente e dentro do território deles. Ampliar as perspectivas através do olho no olho e defender a crença dando o sangue. Ouvir o que se gosta de ouvir além de extremamente cômodo e agradável, é dar um tapinha nas próprias costas.
Vou dar um exemplo de como as coisas acontecem para a apjcc em termos de política de curadoria: há alguns anos tivemos espaço para uma pequena mostra no Encontro Nacional dos Estudantes de Letras na Universidade Federal do Pará, espaço óbvio para a apresentação de filmes sobre literatura, política, filmes alternativos ou coisa que o valha. O que fizemos? Uma mostra de Horror para o horror dos academicistas e viciados em “cinema de arte” ou “cinema político” – a Universidade é o reduto deles. Pouco tempo depois iniciamos um cineclube na Casa da Linguagem em Parceria com a Fundação Curro Velho – Espaço último dos órgãos de cultura em Belém, defensor extremo do papachibesismo e do folclorismo cultural paraense. O que fizemos? Um cineclube para a revisão do cinema hollywoodiano que durante a Semana dos Povos Indígenas exibiu o maior filme de todos os tempos “Rastros de Ódio” que nada mais é que um faroeste sobre o rancor entre brancos e índios. Totalmente inapropriado não acham? Pois é exatamente isso que a produção cultural precisa. Deixar crescer a oposição dentro do sistema. Se fosse pelo que é apropriado “Pierrot Le fou” de Jean Luc-Godard nunca teria sido exibido no Sindicado dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém, ou os adolescentes de Bragança nunca teriam assistido “O Gabinete do Doutor Caligari” ou “Terra em Transe”. Qualquer exibidor mais “coerente” teria exibido praqueles 15 jovens filmes como “Mulheres Choradeiras” ou “O Auto da Compadecida”. Isso é uma manobra para ser amado, é politicagem, demagogia é se submeter ao umbiguismo da platéia. Sempre optamos pelo choque!

Miguel Haoni (cont.) disse...

Vou dar um exemplo absurdo para ilustrar como vejo o que aconteceu. Se um sujeito propõe no cineclube que eu coordeno a exibição e o debate do filme “Pricesa Xuxa Contra o Baixo-Astral” em primeiro lugar eu vou reclamar, mas se ele insistir e disser que vai me fazer mudar de perspectiva sobre o filme através de sua defesa no debate eu pago pra ver. Em primeiro lugar, o cara já merece o meu respeito por ser doido e colocar o nome dele numa parada que eu acho totalmente ridícula, segundo, se ele quer ir pro debate então vamos pro debate! Eu vou atacar, ele vai defender e vice-versa numa relação franca e direta.
Agora o absurdo real: Imaginem um “leso” propondo “Rataouille” num Festival Independente. Ele diz: vou passar um deseninho e vou defender por que estou exibindo esse deseninho e não algo mais apropriado. Nem precisei estar lá para saber que isso foi a coisa mais rock’n roll do Festival Quebramar! Imagine um cara sozinho exibindo “waldisney”, para um bando de barbudo tatuado... Subversão pura. Isso é que é ter sangue nas veias! Entretanto não houve o debate, quer dizer não pela frente! Como descobrimos meses depois quando fui falar com o Otto na Ná Figueredo e ele falou que a organização do festival teve que justificar o lance para diversas pessoas inconformadas.
No primeiro momento achei inapropriado “Ratatouille” naquela ocasião. Pessoalmente teria optado por outro título. Entretanto analisando melhor a cena, vi o quão urgente era naquele espaço, ser inapropriado. Proponho, para redimir a APJCC, exibirmos e debatermos no próximo festival “Branca de Neve e os Sete Anões”. Só pelo rock’n roll que não é nem camisa nem corte de cabelo. É alma.
Miguel Haoni
Agora outras coisas:
1 – Bárbara: todo mundo entra em contato com o PRODUTO Ratatouille, seja no vídeo-game, shampoo, caderno ou mesmo no filme. A exibição tinha a proposta de botar a galera em contato com a ARTE de Ratatouille que não está acessível a todo mundo, gostando ou odiando do filme.
2 – Otto: “Fui claro mais uma vez que seria uma exibição de filmes e docs relacionados à nossa região e/ou relacionados à culura rocker”. Acho que não foi não cara, o Felipe não colocou o filme à revelia da organização como ele mesmo escreveu.
Coloco publicamente a minha tristeza e arrependimento em não poder ter ido para o Festival Quebramar, coisa que já tinha te dito antes por email.
“ de maneira alguma fomos preconceituosos com a obra da Pixar”. Acho que foram sim. Pelo menos foi o que tu disseste que moveu essa nota de esclarecimento. Não chegou até nós nem um email falando dos problemas que a organização do festival enfrentou por causa da nossa “molecagem”.
3 – Heluana e Ricardo: já disse o quão óbvio é exibir “Ratatouille” no Festival Quebramar.

Antônia Silva disse...

Miguel Haoni,você precisa apenas de uma coisa: contexto.

Heluana Quintas disse...

Não me chocou. Não chocou ninguém.... brochou, só isso.
E não sejamos estúpidos Raoni. É bem mais fácil vc ser amado passando "Ratataoulle" do que "Meu Tempo Menino". Na verdade, é cômodo!
Sobre o FIM: informe-se melhor. Somos super parceiros, desde o princípio!!! Participamos da fundação desta atividade. Atuei num filme produzido por um deles (Augusto Pessoa) e um deles é fotógrafo de praticamente todos os ensaios da Mini Box Lunar e de outras bandas do Coletivo. Sobre o Univercinema: Temos um projeto juntos chamado CineRock. E do Univercinema temos 2 membros (Rich e Diego) que são integrantes de banda e fazem a ponte dos projetos. O Rich, inclusive, esteve aí BLM no Festival Megafônica e é uma das pessoas que responde pelo audiovisual do Palafita.
#Nãofalemerda

Não se violentem desnecessariamente!

:D

André disse...

Oh, ela atuou em um filme de um e o outro fotografa a banda dela.Parceiros? Não seria melhor por umas aspas nessa palavra aí ou não? Bem, quanto aos membros do audiovisual que você citou, eles poderiam estar respondendo aqui também, não é? Ou pelo menos, auxiliando o Felipe na mostra do filme, no entanto, uma pequena mostra de filmes não chamaria tanto a atenção do governo do estado quanto um show do ratos de porão ou de qualquer outra banda punk famosinha por aí que atraia "3000" pessoas.

Não estamos nos violentando desnecessariamente,Heluana.Estamos apenas debatendo, voce que está atacando. Aliás, com todo esse seu talento para o debate, acho que até a discussão de um filme como ratatouille poderia virar um quebra-pau daqueles.Você tem o jeito!

Mariana disse...

O que é mini-box lunar? É um filme?

Miguel Haoni disse...

Antônia:O contexto é valioso mas a inadequação é mais.
Heluana: A brochada,a revolta, o amor, o ódio é tudo bem vindo, mas quando expresso de maneira franca, direta, sem frescura.
"É bem mais fácil vc ser amado passando "Ratataoulle""- não foi o caso.
Sobre o FIM e o UNivercinema: legal!
Sobre falar merda: o esgoto de um só fede no nariz do outro (olha a rataria de novo...)
Violência é criação.

Caio Mota disse...

Bom gostaria de acrescentar nesta discussão de pós-produção da mostra.

Felipe meu caro. estive no festival Quebramar e participei da mostra, que parou por questões técnicas (até onde me lembro o DVD deu pau). bom acredito que o que faltou literalmente foi uma boa dose de sensibilidade. meu velho compreendo (pelo seu texto) toda sua intenção em passar esta animação, mas seguinte, o que muitos colocaram aqui antes é simples e absolutamente compreensível. meu velho o que se espera de qualquer produção cineclubista é o 'novo' e mostras cineclubistas são ambientes favoráveis para exibição de filmes que teremos pouco ou nenhum acesso facilmente (n podemos esquecer de nossa internet de merda).
meu caro o filme que vc escolheu qualquer dia desses boia na sessão da tarde, saca?.
nada contra os filmes da sessão da tarde (tem uns que são geniais e fizeram/fazem parte da vida de muitos) a questão é que ainda existe tanta produção que ninguém conhece. e que MUITAS vezes só são exibidas em mostras cineclubistas.
você conhece produções de animação feitas aqui no norte? talvez fosse bem mais massa se a discussão fosse feita em cima dessas produções.



Fica a dica: "Uma teoria sobre João Carlos Junior". "Urdidura". "Nas asas do Condor". todas são animações nortistas. tem uma galera da 'Ink' animações que tem produções bem interessantes tmb.
Outro filme (agora gringo) massa que certamente você deve conhecer é a do japonês Kunio Kato "La Maison en Petis Cubes". uma verdadeira poesia que ganhou diversos premios concorrendo com filmes da genial Pixar. mas que é pouco conhecido por muitos (principalmente quem não tem uma internet boa) por não ter o aporte de distribuição foda como tem o filme que vc sugeriu (que aliás é muito bom).

enfim.
tmb acredito que faltou sensibilidade na hora da exibição. se vc deixa claro o motivo pelo qual esta passando o filme e a discussão que vc pretendia levantar com a mostra, talvez as pessoas que foram ficassem até o fim
mesmo vc tendo escolhido um DVD que tava dando pau (conferir se o DVD ta rodando legal é básico meu velho).
no dia da exibição, independentemente das críticas, vc jogou a toalha e preferiu comentar o assunto na internet ao invés de fazer isto no ambiente favorável que era durante a mostra cineclubista.

abr meu velho.

Felipe disse...

Olá Caio.
Apesar de dizeres que estiveste lá, aparentemente não ouviste muito bem as coisas que eu disse. Antes da sessão expliquei quem eu era, porque havia escolhido o filme e qual discussão gostaria de fazer após exibição.
Quando o dvd deu problema (e havia funcionado quando testei na minha casa) me levantei e disse que ia tirar o dvd para limpá-lo e colocar de novo para continuar a exibição, enquanto eu fazia isso o público se retirou e cheguei a pergunta para as últimas pessoas que saíram se elas não queriam continuar a assistir o filme e a resposta foi "não".
Não reclamo simplesmente porque o público não quis ver o filme (isso é direito de qualquer um), mas reclamo do fato de eu, a pessoa que se dispôs a realizar a sessão, ter estado lá, aberta ao diálogo e ao debate,e ter visto esse diálogo ser negado e depois saber que houve insatisfação com a sessão - e infelizmente essa insatisfação não foi nem mesma direcionada a mim, mas a outras pessoas que nem estavam presentes na ocasião.
Se eu trouxe esse debate para a internet, como você disse, foi porque nesses quase 2 meses que já se passaram do festival não fui procurado uma vez se quer para discutir as questões levantadas por aqueles que não gostaram da escolha de Ratatouille para a exibição.
E mais uma vez: não fui avisado de que a exibição deveria ser voltada para a produção local ou para a temática de música, conversei com a produção antes da sessão e nada disso me foi passado.
E, pela milésima vez: minha postura de exibidor é passar obras de qualidade (não estou afirmando que não existam grandes animações que são pouco vistas, mas não exibiria um filme ou animação pelo fato de ser "desconhecido").
Certas posições tomadas nesse debate diante da "obviedade" e da aparente "vontade de ser amado" que supostamente tinha ao escolher a animação da Pixar para essa sessão só reforçam minha crença de que Ratatouille foi muito visto sim, mas não com os olhos que essa animação merece para ser apreciada.

Anônimo disse...

tem mais de uma mariana nesse meio, rolava uma identificação