Nem o mais genial dos artistas é capaz de penetrar olhos que voluntariamente se fecham para o mundo da Fantasia. Há, nesta postura anti-lúdica, uma resistência que não se justifica por nenhuma espécie de crença estética ou valor artístico pessoal. Trata-se da mais assombrosa e perigosa Ignorância.
Sejamos específicos e deixemos claro desde o início que acontecimento motiva esse texto: a insatisfação com a obra escolhida para ser exibida na programação reservada ao cinema no festival Quebramar, realizado em julho deste ano em Macapá. Tratava-se, no caso, de Ratatouille, de Brad Bird (realizado dentro da gigante da animação Pixar e distribuído pelos estúdios Walt Disney).
A escolha desta animação, feita para motivar um debate acerca do artista e de seu processo de criação, foi considerada desrespeitosa e prejudicial ao festival em questão (festival que pretende um diálogo entre os mais diferentes gêneros artísticos, afirmando um respeito pelas diferenças existentes entre os mais diferentes estilos). É importante deixar claro que Ratatouille é, na opinião de diversos membros da APJCC, a animação da década. Obra-prima brilhante, ode feita por um artista ao seu meio de vida, à sua paixão, à sua motivação última: a arte. Porém, antes de dar continuidade à homenagem escrita que esta animação merece, é necessário nos determos na situação em questão.
Uma coisa é ouvir em uma fila de cinema pessoas desrespeitando grandes obras da linguagem áudio-visual (fiquemos no exemplo das animações, especialmente as mais comumente vilipendiadas como sendo “infantis”, “ingênuas” e “mercadológicas”, ou seja, as feitas nos ou em parceria com os estúdios Walt Disney). Outra coisa é ouvir da boca de realizadores que trabalham a favor da disseminação e do debate da arte reclamações indignadas a respeito de uma determinada obra motivadas não por seus méritos estéticos, mas única e exclusivamente por sua origem.
Se, durante a história da humanidade, sempre houve a luta árdua para convencer o público em geral que o Jazz não era um gênero musical inferior por ter berço negro, que Beatles não era uma banalidade por ser consumido em profusão pelas “massas” ou que a música do Velvet Underground não é menos arte por ser feita por jovens viciados em heroína, hoje (no ano de 2010) é preciso vir a público com este texto para lembrar que a nacionalidade, a linguagem, o gênero e o estúdio responsável pela produção de uma obra não podem ser os elementos exclusivos e totalitários de julgamento de qualquer expressão artística. E ter que lembrar isso a pessoas que estão diretamente envolvidas com a criação, reflexão e disseminação da arte é a circunstância mais assustadora de todas.
É indispensável esclarecer, ainda, que todo esse debate poderia ter sido realizado após a exibição de Ratatouille durante o festival Quebramar. No entanto, não só a sessão começou com mais de 2 horas de atraso (por problemas da organização do evento) como o público se retirou durante a sessão sem dar oportunidade para que o diálogo ocorresse. Fecharam os olhos e os ouvidos, levaram sua indignação para os botecos e rodas de amigos.
Então, que se faça aqui um pouco ao menos do que teria sido exposto na referente ocasião se tivesse havido oportunidade: quando o grande chef Gusteau diz ao ratinho Rémy que “qualquer um pode cozinhar”, ele não está dizendo que toda e qualquer pessoa pode vir a se tornar um artista (afinal, a culinária em Ratatouille é tratada como Arte), mas sim que a Arte pode surgir de todo e qualquer lugar. A democracia do lirismo, a possibilidade de nos depararmos com artistas de origens as mais diversas é o cerne dessa obra. E se projetarmos essa discussão para a própria existência dos estúdios Pixar teremos uma visão ainda mais abrangente daquilo que Gusteau ensina ao seu pupilo: afinal, quem diria que de uma máquina pesada e fria, construída apenas para o armazenamento de dados, que é o computador, poderia brotar a mais pura e bela fantasia, o mais sincero lirismo? Pois, assim como o Radiohead, a Pixar faz sua poesia (e basta ver com os olhos sem preconceito animações como UP, Toy Story 3 e Monstros S.A. para nos darmos conta que estamos diante de Poesia) através de uma invenção criada para servir à propósitos estratégicos na II Guerra Mundial.
Quem somos nós para limitar às fontes legítimas pelas quais uma arte pode se expressar? Quem somos nós para determinarmos que não é possível que a arte surja a partir da TV, do computador, da palavra, do baixo estourado do Joy Division, dos vocais berrados de Kurt Cobain, do eletrônico lisérgico do Pink Floyd?
Mais uma vez, Ratatouille responde belamente esses questionamentos: àqueles que pretendem tolher o espírito poético, àqueles que sentem necessidade de afirmar a qualidade da arte a partir de sua origem só resta reconhecer a pequenez do horizonte de seu espírito diante da manifestação do verdadeiro talento, como faz o crítico Ego ao final da obra de Brad Bird - na esperança de que, através desse reconhecimento (também como o personagem de Ego), as visões se ampliem, a mente se abra e a arte penetre nesses olhos trancados diante de sua presença.
A recusa do debate é a morte do aprendizado. Sem qualquer espécie de ressentimento pessoal o que mais incomoda é ter a certeza que uma obra do porte de Ratatouille merecia um tratamento à altura de sua relevância artística. Talvez em um mundo ideal, onde deixem de existir preconceitos quanto à música produzida por negros e viciados em heroína, bandas consumidas pelas “massas”, baixos estourados, vocais berrados e efeitos eletrônicos lisérgicos, possamos esperar que não haja tão violenta postura diante de uma animação que nem sequer foi assistida, mas pura e simplesmente rotulada a partir do estúdio que a realizou.
O preconceito emburrece e a arte liberta. Infelizmente, assim como a arte, o preconceito pode ser eterno. Cabe a todos aqueles que se PROPÕEM a realizada um DEBATE sério sobre a expressão artística garantir que o preconceito seja o mais rápida e impiedosamente exterminado. Eu me disponho a lutar essa batalha – mais alguém?
Felipe Cruz (APJCC) – responsável pela exibição de Ratatouille no festival Quebramar.
