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3.2.12
Dissimulação para amar
Em "Cópia Fiel", do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, a abertura sustenta a mesma piada quase que simultaneamente. Enquanto espera pelo autor James Miller para uma palestra, seu tradutor pede desculpas pelo atraso do escritor e diz que “ele não pode culpar o tráfego, pois está no andar de cima do hotel”. O público inquieto troca olhares, silêncio, e logo após, James entra na sala e lança a mesma brincadeira. Só que agora os convidados soltam gargalhadas. Dentro dos instantes iniciais do filme, Kiarostami já prepara o espectador para o sustento de sua valiosa armadura; a cópia pode se tornar tão forte quanto a original. A questão do filme é definida por James em plano médio, por trás de uma mesa de leitura. O escritor é inglês e está na Itália para lançar seu livro que questiona a autenticidade. Um encontro. Uma informação no papel. O encontro está armado. Ela é dona de uma galeria de antiguidades. Não existem obras originais na arte e na vida. Este é o argumento principal em "Cópia Fiel". Expõe, em seu monumental jogo, uma série de preocupações. Relações entre homem-mulher, presença e ausência, realidade e representação. O casal ao longo de um dia conhece as múltiplas e transversais camadas de um relacionamento. Em uma cena indispensável, o escritor sai de quadro para atender a um telefonema, uma garçonete interfe na vida do casal: “ele deve ser um bom marido”. A mudança na direção da narrativa e das personagens dentro das personagens é segurada pelo frontalidade dos planos. Em poucos segundos, de desconhecidos passam para casais íntimos e que se conhecem há muito tempo. Pela primeira vez, os dois enfrentam a câmera de frente, a intimidade desarma qualquer espectador, os dois explodem em gestos negativos e troca de insultos que se prolongam na saída do bar. A narrativa é estabelecida com uma mise en scène rica em labirintos – o diretor não nos permite “olhar” para o enquadramento em sua totalidade, anula a profundidade e a periferia do quadro fílmico. Uma espécie de tédio latente se instaura nas bordas que cercam o casal. "Cópia Fiel" sugere a catarse das sensações, dos lamentos, da realidade. Versa sobre o amor. Sentimento dos mais decantados que a arte e a humanidade adoram explorar. Somos as personagens no momento da desconexão do que se passa na tela. A dissimulação para amar, seja um ser humano, a vida ou a arte, é o que faz sermos mais fiéis às nossas escolhas.
Aerton Martins (APJCC - 2012)
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